vazio sujo

O sol estava quente, o céu limpo, mas pairava uma certa nostalgia no ar.
Era um desses dias em que a natureza toma os nossos olhos e se faz rainha.
E lá ia ela por entre esses campos verdejantes, mas sempre ocupada por um certo vazio, que determinava os seus passos e tomava o seu corpo. Distanciando-a.
Caminhava assim ao mesmo tempo que se tentava soltar desse nada, para saborear o verde de primavera e o melodioso som da natureza.
Mas não conseguia, caminhava apenas, vendo apenas, sem nada sentir. Sentia-se opaca. Parecia que perdera para sempre a subjectividade e que a objectividade a tomava por inteiro.
E isso corroía-a.
Se já sentia falta de algo, agora saboreava as profundezas do vazio. Mas continuou.
E deu conta que esses tais assobios desagradáveis continuavam.
E não paravam! Parecendo até que caminhavam com ela.
E foi então num descontínuo instante que a tomaram, agarraram-na bruscamente sem dó nem piedade, taparam-lhe a cara, acorrentaram-lhe os membros e a levaram para um mundo incolor e sem sabor. Percorreram-lhe o corpo desenfreadamente, determinados. E sem repúdios “consumiram-na”. Era horrível aquela sensação. Tentava-se soltar sem encontrar resultado algum. Esperneava-se, tentava gritar, e até a sua alma lá no fundo rezava. Mas não havia ali vergonha, não havia timidez, não havia acanhamento, não havia pudor. Não havia nada, havia algo que ela desconhecia por completo, mas também não era sua intenção percebê-lo, até pelo contrário.
Tinha sido VIOLADA! E deixada ali, como quem consome algo, que lhe percorre o corpo mas que depois expele, sem sentimento algum. Era assim que ela se sentia – um excremento.
Como iria ela agora se apresentar perante todos? Ou sempre a tinham visto como tal? Porquê? Porquê ela?
Fugiu chorando, algo que já devia ter feito antes quando saboreou a nostalgia que a natureza lhe transmitia.
Não soube ver, não soube! O que iria fazer ela agora?
O que se faz depois disto?
Só tinha ânsia de chegar a casa.
Ao passar o ribeiro, foi tomada pelo desejo de se afogar com o nada para esquecer o tudo.
Mas continuou a caminho de casa, e indecisamente sem ver futuro determinou-se a esquecer e a continuar.
Mas nada nunca se esquece. Tudo apenas se torna pouco ou muito visível.


E esta recordação, eternamente, se irá fazer para ela uma dessas recordações muito visíveis.


[Ela agora para além de mais vazia, estava suja!]

0 comentários:

Copyright @ A susana antónia do português . | Floral Day theme designed by SimplyWP | Bloggerized by GirlyBlogger